O que posso dizer do ferro, da musculação, do ato quase transcendental de levantar pesos e se moldar através da dor que ele causa?
Foi o que salvou a minha vida.
Pode parecer banal.
Pode parecer bobagem.
Ou coisa de alguém que dá significado demais a algo trivial…
Mas, pra mim, foi tudo.
Foi onde consegui vencer a mim mesmo.
Onde pude, pela primeira vez, provar que tinha algum valor.
Foi onde me superei — e construí uma armadura contra a agressão e a rejeição.
Foi onde me senti visto.
Onde fui respeitado como alguém que construiu algo do nada, do zero, do rascunho, da folha em branco.
Foi no ferro que, com a dor, consegui esquecer um pouco da dor.
Foi com o ferro que moldei um corpo que eu sempre odiei —
e ele se tornou o reflexo do meu esforço.
Algo que só eu podia fazer por mim, depois de tantos abusos, desprezos e abandonos.
Ali, eu não me abandonava.
Ali, eu me construía.
Naquele chão suado de academia, eu podia levantar todo o peso da máquina.
Pegar os maiores halteres.
Ser o mais forte do lugar.
E provar, ainda que em silêncio, o meu valor.
Me forjando.
Dia após dia.
Indo debaixo de chuva, ou tarde da noite, passando por prostitutas nas ruas.
Indo depois de um dia inteiro de trabalho e estudo.
Depois de uma briga com minha mãe.
Com minha namorada.
Indo despedaçado — pra me fundir com o ferro.
E, incrivelmente, era ali…
Na dor do ferro…
Que eu esquecia todas as outras dores.
Um paradoxo.
A dor escondendo a dor.
Não apagando.
Mas anestesiando, por algumas horas, enquanto eu tentava suportar a pressão da vida.
Não sei se deu certo.
Mas ainda hoje eu tento esquecer a dor com mais dor.
Uma contradição.
Uma loucura.
Um outsider num mundo que tenta esconder a dor com prazer.
Eu escondo a dor… com mais dor.
Por quê?
Me pergunto isso ainda hoje —
deitado num banco de supino, olhando aquela luz fria do teto.
Como um paciente internado num hospital psiquiátrico, mirando um ponto fixo…
debaixo do ferro, frio e impiedoso.
Por que eu faço isso?
Como ressignificar isso?
Será que eu realmente quero dar outro significado?
Ser moldado pela dor…
Ser abraçado por ela…
Não me torna imune —
mas me obriga a encarar meu lado mais sombrio.
Mesmo que seja por algumas repetições…
com todo o peso que uma articulação ou uma coluna pode aguentar.
Talvez o padrão autodestrutivo faça parte disso.
Talvez seja o desejo inconsciente de causar algum dano a mim mesmo.
Como uma forma de autoagressão com controle.
Porque, naquele momento,
se sou eu quem me fere… ninguém mais pode fazer isso.
E assim eu descubro o quanto consigo aguentar — e vou além.
Transcendo.
Naquele instante, ultrapassar a dor é a minha forma de resistência.
É o que poucos conseguem.
E se eu consigo fazer isso…
então eu acredito que posso suportar o resto.
Talvez eu esteja errado.
Talvez você diga que é loucura.
Mas foi isso…
isso que me trouxe até aqui.
Cara que texto incrível e inspirado Gabriel , me identifico com muitas dessas palavras e vivências.
Obrigado pelo feedback irmão. Esses dias quase desisti de pagar o domínio do site que ia vencer, mas suas palavras me ajudaram a ver que tomei a decisão certa de não desistir!