O ferro pode ser um anestésico pesado contra a solidão, mas também pode te afundar nela se você se deixar levar pelo egoísmo e egocentrismo intrínsecos ao nosso esporte. O bodybuilding pode ser muito egoísta. Os gastos para o campeonato, os custos com alimentação, o isolamento social a que você precisa se submeter para uma prova ou uma preparação… Tudo isso vai te isolar de uma vida social considerada normal, regada a álcool e alimentação barata e processada.
Se você se deixar satisfazer pelos prazeres fáceis desse mundo, você está ferrado como bodybuilder. Como um verdadeiro bodybuilder, você precisa ser um outsider. Precisa fazer o contrário do que as pessoas hoje em dia estão fazendo. Ou não… Hoje em dia todo mundo está nessa maldita moda. Mas poucos seguem com o coração a essência desse esporte.
A maioria quer tirar foto na frente do espelho ou gravar a bunda para as redes sociais. Bodybuilding não é isso. Bodybuilding é a mais pura arte de ressurgir. Quando tudo parece esgotado e as forças acabadas, é que nasce um verdadeiro bodybuilder. Quando você não consegue fazer mais uma repetição e ergue aquele peso, quando você não aguenta mais um dia de dieta e come o que tem que comer, quando o dia está chuvoso e você vai treinar do mesmo jeito. Bodybuilding é um empilhamento de dias ruins.
Alguns dias vão ser bons e vai estar tudo certo, mas é nos dias ruins que você se torna um bodybuilder. Nos dias ruins, quando tudo parece dar errado, que você faz o que tem que ser feito, pois um bodybuilder sempre faz o que precisa ser feito, não importa o quê. Por isso, muitos nos julgam quando comemos em lugares onde não se come peito de frango e batata. Alguns, hoje em dia, fazem isso para serem especiais, mas nós fazemos desde sempre. Isso não começou agora e não termina agora.
Levantar pesos sozinho pode ser terapêutico. Você ergue a barra incontáveis vezes e tudo que pode sentir é o ferro frio e implacável. O relógio que passa rápido quando você está concentrado; o mesmo que você queria que passasse voando durante todo aquele tempo em que você esteve na pior. Por que o tempo é sempre implacável? Você tenta se reerguer e lutar contra ele, mas parece que ele sempre vence. O ferro sempre vai te colocar no seu lugar e dizer quem você é. Se você quiser levantar o que não está preparado, ele vai te presentear com uma bela lesão. Se você colocar muito pouco, ficará estagnado e perdendo tempo.
O ferro te lembra, nos dias mais sombrios, quem você é de verdade e até onde você pode chegar. Isso ainda me surpreende. Como eu cheguei até aqui em meio a tanta tempestade? Por que eu ainda estou fazendo isso e levantando todo o peso que posso? Por que isso é como um câncer que se alastra por todo meu corpo e eu ainda faço isso apesar da dor?
Porque isso me molda e diz quem eu sou, me faz forte e resiliente. Me dá resistência para enfrentar os problemas cotidianos. Sem isso, eu não estaria aqui. Sem isso, eu seria uma pessoa normal, e o pior para alguém como eu na vida seria ser uma pessoa normal. Que come qualquer coisa, que bebe qualquer coisa, e para quem carros e luxos são mais importantes que superação pessoal. Talvez a gente não tenha superado nada no final das contas, talvez isso seja uma ilusão. Mas isso nos faz ser quem somos e, em meio à solidão, ainda estamos de pé para mais uma série.