Publicado: 5 de fevereiro de 2016 em:

Velhos Tempos

 

Lembro quando não tinha nada. Quer dizer, quase nada: Alguns potes de plástico velho que  quase não fechavam mais, que usava para levar os restos de sassami, batata doce, arroz… um cinturão de couro que estava nos Achados e Perdidos da academia que a recepcionista me cedeu: “Ei, você usa isso aqui né? O tanto de força desse jeito que você faz, acho que vai precisar…” (Ela estava certa… Me serviu para competir em um Strongest Man amador na minha cidade, agachar com 300kg, desenvolvimentos com mais de 160kg… Ela ficaria surpresa que mais de 10 anos se passaram e eu continuo usando o mesmo velho  cinto surrado da Valeo – que fizeram meus olhos brilhar quando o vi em seu couro novinho em folha, fruto de alguém que não podia perceber a beleza dele.) Um strap velho da Rudell, quase rasgando, que encontrei jogado em um canto, descartado, que me serviu para fazer inúmeras, incontáveis repetições de levantamento terra e remadas curvado… E um sonho dentro da mochila da academia. Alguns recortes de revistas, colecionadas com qualquer dinheiro que me sobrava, Umas doses de “Total Protein” da DNA, cheio de aveia… O pior composto de proteína que já experimentei, simplesmente tinha gosto de fezes com massa de bola. Mas quebrava o galho com aveia em flocos, mastigando aquela argamassa desprazerosa.

E assim era meu percurso naquela época, sem muitos amigos, sem muitas baladas, muito trabalho duro em todas as áreas da vida; estudos, faculdade, 2 empregos, cursinho para concursos, estudar apertado no ônibus, com os braços fechados tentando grifar alguma nota importante com a lapiseira que cismava em escorregar da mira a cada maldito balanço daquela lata de sardinhas gigante. Por muitas vezes sentava no canto do corredor, para evitar ter que me espremer com alguém, treinar horas e horas na academia tinha um efeito colateral. Ficar apertado nos transportes coletivos. Mas sempre gostei da sensação. Não conseguir encontrar calças me deixava mais feliz a cade mês. A tortura das diversas séries de extensora zerando a máquina, seguidas do máximo agachamento possível, e do anseio de sempre usar todos os pesos no leg press com melhor execução possível estavam pagando seu preço.

Haaaa, os incontáveis treinos no porão da Halteres, academia rudimentar localizada na região da cidade com mais prostitutas por metro quadrado. A área de treinar pernas era descendo um lance de escadas de taco de madeira escuro. As paredes semi texturizadas com aquele branco velho e encardido, com canos aparecendo nos tetos e alto das paredes, me lembravam uma sala de tortura. Ao descer, você dava de cara para uma paralela pintada de branco descascada fundida no chão, com um cinturão muito velho de couro com correntes dependurado, que nunca couberam na minha cintura. Era muito largo. 
 
Virando para a direita um pouco distante, no canto ao lado de um espelho com as bordas quebradas, e um ventilador grande no chão, estava o Smith Machine mais estranho que já pude utilizar. Ele era composto por uma barra guiada que dava uma leve travada em sua máxima amplitude excêntrica, correntes de metal que sempre me sujavam de graxa e molas em sua base. Foi a primeira máquina que utilizei mais de 200kg. Flexão plantar era um exercício seguro para fazer com um calço de madeira de lei que ficava logo à frente. Tirando o fato que por muitas vezes era difícil encaixar a trava de segurança para guardar o peso. Na verdade era um puta desespero pensar em não conseguir travar aquela merda com mais de 200kg no seu trapézio.
 
Pouco atrás desse smith emocionante, havia uma mesa flexora totalmente horizontal. Bons tempos onde as máquinas machucavam sua tíbia no apoio, sujavam você de graxa e te torturavam de uma maneira incomparável às máquinas confortáveis com assentos acolchoados de hoje. Suas roldanas também eram compostas por correntes, e um barulho muito típico podia ser escutado de quem experimentava utilizá-la. O primeiro, o barulho da corrente correndo pelos trilhos da máquina, o segundo os urros de dor de quem a executava com carga considerável. Na verdade, mal era possível atingir mais da metade da pilha de pesos, talvez pela ferrugem, talvez pela dificuldade que tinha na época em atingir com eficiência os femorais, ou talvez pela dificuldade que era executar aquilo ali. As vezes fico pensando que Tom Platz utilizou aquela máquina. Igualmente a cadeira extensora de correntes que ficava ao lado. Robusta e com muita resistência.
 
Logo ao lado da gaiola de agachamento humilde, que balançava como uma gangorra, mas que segurava muito bem 200kg com seus grossos pinos de metal fundidos estava o Leg Press da Halteres, que era uma atração à parte. Logo em cima tinham duas anilhas de 50kg. Na verdade dois aros de trator, caminhão, sei lá que máquina dos infernos surgiram aquelas anilhas pintadas de vermelho escritas com tinta branca 50KG. Era legal agachar com aquelas anilhas, dava um ar de Strongest Man ao treino à moda antiga. Mas poucos malucos como eu, se arriscavam a tirá-las do leg para transportar à barra de agachamento. Algo que me traz muita melancolia e saudades era o autêntico Leg Press Vertical, logo ao lado do Hack. Esse porão era tão vazio que executar exercícios de meia, descalço… passavam despercebido. Sua iluminação fraca, escorrendo das passagens de ar que davam para a rua e de algumas luminárias com luz amarela ambientavam as sessões de auto flagelo.
 
 
Para fechar uma máquina de panturrilha sentado e um burrinho, um apoio de madeira ultra inclinado para abdominais, uma adutora que virava abdutora abandonada, uma cadeira flexora bamba e várias anilhas de toda as formas e marcas jogadas pelo chão: York Barbbell, Weider.. Não se fazem mais anilhas como antigamente. Essas formas hexagonais são um verdadeiro lixo! Ao fazer um terra pesado, batendo as anilhas no chão, você não consegue saber pra onde elas vão. Anilhas são redondas. Ponto! É como tentar reinventar a roda!
 
 
Analisando esse artigo saudosista que comecei a escrever e não terminei… Reli, voltei a ler com melancolia, agora há duas semanas sem treinar por puro cansaço mental, me fez repensar quem eu sou e de onde vim. Hoje em dia em uma academia luxuosa, estabilizado…. Trabalhando 15horas por dia percebo que a dificuldade forja o caráter e a vontade. É como diz o velho ditado: “Não se faz marinheiro bom com mar calmo”. Mas posso afirmar que o mar nunca foi calmo, tantas turbulências e tempestades que realmente acho que fazem parte da vida de qualquer um poderiam ter me afundado e me deixado submerso sem respirar até hoje. Mas por milagre divino consegui suportar as piores tormentas e apesar do navio balançar muito ainda estou no trajeto certo. Agradeço a Deus de onde vim e o que me tornei. Forjado no ferro e na dor.

Gabriel Ortiz

Gabriel Ortiz, bodybuilder natural lifetime, ou seja, nunca utilizou esteróides anabolizantes. Formado em Educação Física, atua como treinador em Brasília, já preparou e prepara vários atletas naturais, inclusive premiados com o título de profissional 'Pro Card' pela ANBF em Dez/16 nos Estados Unidos - FL. Redator e colunista desde 2006, cunhou o termo "Preconceito Muscular".

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7 Comentários em "Velhos Tempos"

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Unknown
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Volte com os textos ortis, pode ter certeza que há muitos fãs do ferro que lhe acompanham.

Unknown
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Não tenho palavras pra descrever o quanto eu gosto desse site, textos, historias, motivação, uma visão solitária e realista de como é de fato a vida de um bodybuilder…. Muito obrigado por me proporcionar esses momentos de leitura maravilhosos seja lá quem for… BB life!!

Unknown
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Muito bom! Estou sempre acompanhando!

Gabriel Ortiz
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Obrigado, amigo! Voltando aos poucos, mas com tudo! Abraço

Gabriel Ortiz
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Obrigado, amigo dos ferros! Sou eu quem escreve os artigos, continue acompanhando!!! Abraços!

Gabriel Ortiz
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Grato, caro leitor!!! Abraço

Unknown
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Ótimos textos, histórias e motivações que só inspiram quem leva a musculação a sério. Dificuldades reais e persistência total. Motivação é encontrada aqui, sempre leio. Continue com o brilhante trabalho! Abraços

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